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Branco: paz, calma e pureza
Depois de viver 80 anos concentrados em 30, o que eu quero agora é um ano em câmera lenta, um ano em que nada mude radicalmente, em que nenhuma grande surpresa me pegue desprevenida, em que tudo continue como está agora: feliz! Nada mudando 180 Graus, nada de imprevistos previsíveis, nada de chegar no próximo reveillon e pensar: “no reveillon passado, eu nunca imaginaria que nesse reveillon eu estaria aqui”. Não, eu quero chegar no próximo reveillon exatamente como eu estou hoje: curtindo essa felicidade tranqüila. Porque apesar de ter vivido 80 anos concentrados em 30 e de já ter vivido de quase tudo um pouco, essa felicidade tranqüila é algo completamente inédito para mim. Por isso é que, depois de já ter gritado “alegria” bem alto em algum reveillon do passado, depois de já ter falado em algum outro reveillon “paz é o caralho, eu quero mais é um ano novo cheio de diversão”, depois de já ter passado viradas de ano desejando mudança, ou paixão, ou emitindo vibrações positivas para as 7 direções, agora eu quero é usar branco nesse reveillon, porque eu quero mais é paz, calma e pureza em 2009.
posted by MÁRCIA DO VALLE
29.12.08
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Dizem que assim a criança nasce, ela não sabe que é uma pessoa diferente da mãe, acha que as duas são a mesma coisa. Só depois de alguns meses é que a criança aprende que ela é uma pessoa e a mãe é outra. E isso é totalmente compreensível, já que o neném é pequenininho e essas coisas sobre individualidade são complicadas mesmo.
Só que na verdade, não foi bem assim que as coisas aconteceram com a gente não. Assim que você nasceu, filha, era eu que não sabia que eu era uma pessoa e você era outra. No meu inconsciente, você continuava sendo uma extensão minha, como era a minha barriga de grávida. Onde eu ia, você ia junto, claro, sempre. E isso era tão óbvio como é claro que ninguém vai a lugar nenhum sem levar seu braço junto, ou qualquer outra parte de seu próprio corpo. O que eu fazia, eu fazia grudada em você. Se eu assistia televisão, era grudada em você. Se eu lia um livro, ou uma revista, era grudada em você. Se eu dormia, era grudada em você. E mesmo quando eu, num ato rebelde, tentava fazer alguma coisa sem você, ir a algum lugar sem você, eu chegava lá e sentia como se estivesse faltando alguma coisa, como se eu tivesse deixado meu braço em casa, por exemplo. Só que o meu braço continuava comigo, claro, a parte do meu corpo que estava faltando era você. E era tão complicado ficar em qualquer lugar sem você, que eu rapidamente começava a achar tudo chato, começava a pensar que eu estaria me divertindo muito mais se eu fosse logo para perto de você, e é óbvio que era isso o que eu acabava fazendo rapidamente.
Só depois de alguns meses, filha, é que eu fui começando a entender que nós éramos duas pessoas diferentes, separadas, dois indivíduos distintos. Primeiro eu comecei a conseguir ficar um pouco longe de você quando eu era obrigada a fazer alguma coisa, como trabalhar. Não vou dizer que eu ficava toda alegre e faceira de ir para longe de você não, mas acabei percebendo que isso era uma alternativa viável, suportável e, contrariando tudo o que eu tinha vivido nos meses anteriores, era até mesmo normal. Depois, eu fui descobrindo que poderia ser divertido fazer algumas coisas sozinha, que passar algumas horas longe de você por minha escolha não era um programa de índio, que poderia ser até bem interessante, dependendo de para onde eu fosse e com quem. Não é que eu não ficasse com saudades, claro que eu ficava, mas isso não tornava mais todas as outras coisas insuportavelmente chatas. Era uma saudade que eu conseguia administrar.
Agora, além de conseguir ficar fisicamente desgrudada de você, a cada dia você me mostra mais um pouco as suas preferências, as suas atividades, e todas essas coisinhas que formam a sua personalidade, que é diferente da minha. E cada descoberta que eu faço a seu respeito, para mim é uma festa! É uma festa quando eu vejo quais pessoas você gosta mais, qual brincadeira você gosta mais de fazer com cada uma dessas pessoas, qual comida você prefere, qual brinquedo você escolhe quando tem um monte ao seu alcance, quais passeios você aproveita mais, qual bicho te desperta mais interesse, quais roupas ficam mais bonitas em você, e todas essas outras escolhas que a gente faz sem nem perceber, mas que mostram quem a gente é. É uma festa cada vez que eu conheço um pouquinho melhor a pessoinha que é você. A pessoinha que eu já amava tanto mesmo sem conhecer todos esses detalhes que você tem me mostrado ultimamente, e que agora eu amo mais e mais, se é que isso é possível.
posted by MÁRCIA DO VALLE
19.12.08
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Se eu conseguisse seguir a cartilha, eu deveria te dar a vida e te ensinar tudo o que sei. E então eu te ensinaria sobre amor, carinho, respeito, cafuné, e todas as outras coisas que eu acho realmente importantes. Teoricamente, eu te ensinaria a sorrir, depois a ser cada vez mais independente à medida que você fosse aprendendo a sentar sozinha, a engatinhar e a andar. Eu te ensinaria tantas coisas, que em alguns anos você poderia até saber quase tanto quanto eu sei, e isso me encheria de orgulho.
Só que na prática não foi nada assim. Foi você, filha, que deu vida à mulher que eu sou hoje e que nasceu há quase um ano. É você, filha, que me ensina sobre amor, carinho e respeito, muito mais do que eu já aprendi ao longo de mais de 30 anos tentando ser auto-didata ou buscando os professores errados. Você é que me ensina a sorrir, mesmo quando nem mexo com a boca. E depois de procurar muito e por todos os cantos, foi você que me mostrou onde é o meu lugar e qual é a minha tribo. Aliás, minha minúscula e seletíssima tribo, que eu não troco por nada no mundo. A única coisa que ainda segue o planejamento inicial é o orgulho. Ah, filha, você nem imagina como eu fico orgulhosa de te ver me ensinando tanta coisa!
posted by MÁRCIA DO VALLE
17.12.08
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"Caberá ao nosso amor o que há de vir"
Marcelo Camelo
Você cuida bem de mim quando me diz as horas no meio da madrugada, quando decide comprar mais um presente de Natal para mim porque acha que o primeiro foi muito pouco, quando espera eu experimentar todos os vestidos da loja e ainda me diz qual você gostou mais, e até quando começa a comprar suas roupas na TNG e na M.Officer em vez de continuar comprando na Taco, só por causa da minha insistência.
Você cuida bem de mim quando vai comigo ao show do Marcelo Camelo sem nem dizer que achou um saco, compra a foto que tiram da gente e ainda concorda que o cara tocou “Além do que se vê” só porque eu pedi.
Você cuida bem de mim quando me dá bons motivos para acordar cedo durante a semana sem ficar de mau humor, quando tira e coloca as coisas pesadas da mala do carro, quando inventa uma programação intensa nos nossos fins de semana, e até quando me pede para dirigir porque você está sem lente de contato ou porque bebeu cerveja ou por causa das duas coisas.
Você cuida bem de mim quando cuida bem dos meus sobrinhos, do meu afilhado e de todas as outras pessoas que eu amo e também me esforço para cuidar bem. Você cuida bem de mim mesmo quando eu estou estressada e fico calada por causa disso. Você cuida bem de mim sem nem perceber, cada vez que me faz um carinho sem eu nem estar esperando. Você cuida bem de mim quando me ensina essa novidade que é “ser cuidada”, essa outra novidade que é “cada um ceder um pouco” e essa novidade novíssima que é “felicidade a dois”.
Você cuida bem de mim quando me deixa ser mulherzinha e, mais do que isso, uma mulherzinha amada. Aliás, você cuida bem de mim de verdade mesmo porque você me traz essa coisa boa que é ser amada.
posted by MÁRCIA DO VALLE
15.12.08
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Hoje acordei cedo e fui malhar naquele horário que eu nunca vou porque me mata de preguiça, mas que é o seu horário preferido para ir na academia. Mas não, hoje você nem estava lá para essa ida à academia começar o meu dia mais animado. Aliás, desde bem antes de chegar na academia, já tinha sido impossível não notar que voe realmente não estava comigo para a gente começar o dia mais animado. Depois fui na Farma Life e quase comprei um Twix para a gente, só que na hora eu lembrei que não, que você não estava aqui. Então achei que o mais provável era que eu passasse todos os próximos dias sem nem comer uma guloseima desse tipo, o que até teria seu lado positivo, já que eu não engordaria. Só que logo depois eu comecei a mexer na minha bolsa para procurar meu pen drive e achei o diplomata que você me deu ontem. Porque você pode até não estar aqui, mas deixou um monte de detalhes espalhados pelo meu dia para me lembrarem de você.
E o dia inteiro foi assim, com um monte de detalhes sem importância acontecendo e me dando vontade de te contar, de dividir com você, de te mostrar, de te incluir, mas tudo isso foi sendo arquivado na gavetinha das vontades que eu vou enchendo, enchendo, enchendo, até chegar o fim de semana e a gente esvaziar de novo. Nada de importante não, só a vontade de te mostrar o álbum de fotos que eu comprei, a caixa da koppenhagen caprichadíssima que escolhi, o muralzinho com fotos novas que estou pensando em imprimir para colocar ao lado do meu computador, o bolo de cenoura com calda de chocolate que estava me esperando em casa e o presente de aniversário do meu afilhado que fez ele ir correndo na direção do meu carro quando cheguei para me perguntar onde é que estava o gol que boiava na água. Aliás, você fez muita, mas muita falta mesmo na hora de encher esse gol para ele começar a brincar.
É, baby, você faz falta. E cada uma dessas coisinhas que ia acontecendo e que me deixava com saudade, eu pensava logo no lado bom da saudade, que é a hora de matar a saudade, que pode ser tão bom, mas tão bom, que pode até conseguir compensar todo o lado ruim da saudade. E é por isso que eu estou aqui, agora, enrolando sozinha no computador em vez de ir logo para a cama, doida para chegar logo sexta-feira.
posted by MÁRCIA DO VALLE
9.12.08
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O irmão número 1
Depois de tantos anos, já me acostumei com a idéia de ser a terceira filha. Aquela que não é a mais velha, não é a caçula, mas também não pode nem se dar ao luxo de ser a do meio. É só a terceira e ponto final. Aquela que, quando minha mãe apresenta pela milésima vez para a velharia da família, os outros perguntam “essa que é dentista?” e minha mãe responde que não, “então essa é que mora fora?” e minha mãe responde de novo que não, até que ela se rende e avisa logo “essa é a minha terceira”. A filha número 3. Aquela que nasceu depois das maiores e antes do caçula.
Só que um dia eu percebi que, apesar de ser a filha no 3, pelo menos para uma pessoa, eu sou a irmã número 1. Ou talvez eu nem seja a irmã número 1, mas me sinto como se fosse, e isso já basta para eu me sentir especialíssima! Pronto, irmão, já até te dei a saída para quando esse texto causar polêmica. Mas o que eu queria te dizer é que ser a sua irmã número 1 (ou me sentir a sua irmã irmã número 1) é uma delícia! É bom demais! É tão bom, que fico achando que o melhor presente de aniversário que eu posso te dar, é a certeza de que você é meu irmão número 1. Número 001. Independente de convites para apadrinhamento.
Parabéns, irmão! Te amo!
posted by MÁRCIA DO VALLE
4.12.08
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"I´m yours"
Hoje eu acordei e vesti a primeira roupa que eu encontrei naquela bagunça em cima da minha poltrona, mas quando notei, estava toda de preto, quase de luto, mais um pouco e eu brindaria ao fim de uma fase, então decidi mexer um pouco naquela pilha de roupas até encontrar uma blusinha branca, e ainda coloquei o colar e a pulseira de Minnie, para ficar bem colorido, para ficar com cara de quem prefere brindar ao início de uma nova era, mas acho que essa produção ficou meio fake, porque eu estava mais autêntica toda de preto mesmo. Depois prendi o cabelo, mas nem ficou parecendo que eu estava prendendo o cabelo porque meu namorado acha que eu fico bonita de cabelo preso. Ficou aquele rabo de cavalo de quem está com pressa e sem muita paciência para andar com os cabelos soltos. Bem diferente dos últimos dias, bem diferente. Deve ser por isso que me falaram que tem uma nuvem começando a se formar na minha cabeça e que eu não tenho balançado a cabeça quando ando.
Essa noite minha filha voltou a dormir bem, mas nem dividi isso com você, então foi um pouco como aquela piada do cara que acaba sozinho com a Luana Piovani numa ilha deserta e não tem ninguém mais para ele poder contar que está pegando a Luana Piovani. E quando levantei, nem fiz vitamina de banana, porque não tem graça nenhuma fazer só um copo de vitamina para tomar sozinha, mesmo que eu aproveitasse para colocar bastante mel, do jeito que você não gosta.
Essa noite vi como aquela cama é enorme e como é ruim quando fica muito espaço vazio sobrando por lá. Então pensei que, numa época de contenção de despesas, em que a empresa começa a cortar até o cafezinho e diminuir o número de carros, os motoristas tinham mais é que ter toda a boa vontade do mundo em mudar o itinerário e aprender a chegar em endereços novos, porque se não for assim, ou eles perderam totalmente a noção de bom senso, ou eu é que estou estressada demais. E isso me fez lembrar de um episódio da Família Dinossauro em que a Fran andou se negando a fazer a dança do acasalamento e o Dino falou que o casamento era um relacionamento baseado no alívio de stress, que sem o alívio de stress, o que sobrava era só stress, stress, stress. E eu nem estou casada, nem tem ninguém se negando a fazer nenhuma dança do acasalamento, mas me lembrei desse episódio mesmo assim e pensei: stress, stress, stress. Me deu saudade de quando eu só precisava ter cara de pau suficiente para responder quando perguntassem se a gente já ia dormir antes de nove horas da noite, e eu usasse todo o meu talento para responder de forma convincente que a gente preferia aproveitar que a neném tinha dormido cedo para dormir também, já que ela poderia acordar no meio da noite, ou começar o dia seguinte cedo demais.
Depois, baby, como eu não tinha escapatória mesmo, entrei no carro e fui para o trabalho no trajeto mais sem graça do mundo, sem nem passar por Bariloche, muito menos pela Lua. No rádio, só tocava música chata e desanimada, então resolvi colocar aquela música bem alto astral quem tem no último CD que eu comprei. E como nada no mundo é por acaso, você sabe qual é o nome daquela música? I´m yours...
posted by MÁRCIA DO VALLE
2.12.08
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Natal...
O carro ia avançando devagarzinho naquele engarafamento de Copacabana, enquanto eu pensava que o que eu queria, mas o que eu queria de verdade, era mostrar para a minha filha aquele Papai Noel preso na parede, que levantava os braços e as pernas enquanto tocava musiquinha, e depois aquele outro, que tinha uma barba enorme e um monte de luzes coloridas piscando em volta. O carro quase nem saía do lugar na Pompeo Loreiro e eu não parava de pensar que o que eu queria mesmo era que a minha pequenininha visse aquela árvore de natal toda enfeitada, com presentes que a gente só poderia abrir depois de meia-noite, mas que a curiosidade era tanta, que cada um ficava lendo as etiquetas “de... para...”, para encontrar seu presente e apalpar, sacudir, ver se fazia barulho, se era grande ou pequeno, para tentar descobrir o que tinha dentro. E eu sei que a minha filha ainda não conseguiria procurar o seu presente, nem entenderia essa advinhação com a embalagem fechada, mas aposto que ela gostaria de ver a criançada agitada nessa missão e ficaria balançando os braços e dando gritinhos de alegria, como se estivesse participando da brincadeira de igual para igual. Sei também que ela nem ia notar que essas crianças eram o passado dos adultos que ela conhece, nem ia entender quando minha avó reclamasse porque meu pai estava comendo algumas coisas da mesa antes dos outros chegarem, nem ia comer o mousse de chocolate que seria disputado por todos os outros, nem nada dessas coisas, mas eu tenho certeza de que ela gostaria de conhecer um colo de açúcar e ouvir histórias do macaco velho.
posted by MÁRCIA DO VALLE
28.11.08
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Eu posso ser feliz assim
Contrariando todas as previsões, eu posso ser feliz assim, com uma vida tranqüila, indo no mercado para comprar uma sobremesa para o almoço, aproveitando o fim de tarde para brincar no balanço de neném e esperando o fim do jogo de futebol para ficar juntinho. Apesar de ser surpreendente, eu posso ser feliz assim, aproveitando a manhã de sol para ir à praia, curtindo uma piscina no domingo e dormindo um pouco enquanto ele joga tênis. Logo eu, que sempre fui do time dos menores, me peguei descobrindo que posso ser feliz assim, tomando café da manhã na loja de sucos, comprando algumas coisas enquanto ele lê o jornal e mostrando os peixes do laguinho para a minha filha. Posso ser feliz passeando pelo condomínio com a minha filha até ela dormir no seu carrinho, pedindo ajuda para colocar ou tirar as coisas do carro e sendo mulherzinha, bem mulherzinha, como todas as outras mulherezinhas são. Pois é, eu posso ser feliz com o que faz as outras pessoas felizes, posso aproveitar o que existe de bom em estar no mesmo lado da maioria, posso ser feliz assim, com a sorte de um amor tranqüilo, com sabor de fruta mordida, como naquela música que eu gosto.
posted by MÁRCIA DO VALLE
17.11.08
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