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"Amigo é alguém com quem você pode pensar em voz alta"
Ralph Waldo Emerson
Amizade de verdade é assim, depois de criar raízes profundas, continua existindo sem precisar de mil encontros e telefonemas por semana para fazer a manutenção. Por isso é que, como sempre, a gente nem se encontrou para comemorar o seu aniversário, também não tem se encontrado para comemorar o meu, e isso não abala nada de nada. Pelo menos, agora a gente tem comemorado junto outros 3 aniversários importantíssimos, o que já garante 3 encontros por ano, mais do que a gente vinha conseguindo nos últimos anos.
Amizade de verdade é assim, não se resume às muitas e muitas lembranças, mas tem também o presente e o futuro com a certeza de que a outra pode até estar distante, pode até não ir no casamento nem dar presente (não podia perder a chance de te lembrar isso!), mas a cumplicidade continua existindo. A cumplicidade de quando você escuta, escuta, e acaba me convencendo a não mandar ninguém para a cadeia. Ou a cumplicidade de quando a gente se junta para falar mal das outras mães.
A verdade, amiga, é que as outras mães são aquelas mulheres que sempre foram diferentes da gente, com roupas brancas que não sujam nunca, cabelos impecavelmente escovados a qualquer hora do dia ou da noite, agindo de forma discreta e sempre de acordo com a moral e os bons costumes. Elas eram as namoradas que sentavam no cantinho das festas, com sono e sem beber, enquanto a gente bebia e dançava a noite inteira. Então é claro que elas viraram mães que sentam no cantinho com seus filhos quietinhos, cheias de potinhos Nestlé, enquanto a gente continua no meio do salão curtindo e aproveitando. Só trocamos o melzinho pela pipoca, a pista de dança pela tirolesa. O mundo continua o mesmo, com as mesmas pessoas, só que nesses ambientes cheios de mãe, tenho que admitir que nós duas somos minoria. Sei lá, a gente deve até estar invadindo o território delas. Afinal, elas continuaram namorando o primeiro namoradinho da época do colégio, tudo politicamente correto, e é claro que casaram com ele e tiveram filhos. A gente é que pegou um atalho e caiu na mesma estrada que elas, mas sem a menor vocação para encenar comercial de margarina. Eu prefiro mesmo é comercial de sabão em pó, onde aparece aquela criança toda imunda de terra e comida, a mãe joga a roupa na máquina de lavar e todos voltam a brincar na terra de novo.
Enfim, amiga, comecei a escrever para te dar parabéns atrasado e o texto foi por um caminho totalmente diferente. Vê só, a minha dificuldade de seguir pela estrada das outras mães é um pouco parecida com essa minha dificuldade de simplesmente te desejar um feliz aniversário sem passar por outros temas.
Mil beijos para você e para os pequenos!
posted by MÁRCIA DO VALLE
29.1.10
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Mais uma carta para a filha
Apesar de você estar animadíssima para começar a escola, apesar de você ter uma fantástica capacidade de se adaptar a mudanças, apesar da sua grande facilidade de socializar com todos e tudo, ainda assim eu estava meio apreensiva com o início do ano letivo. Afinal, quem são essas crianças que vão estudar com você, que vão te fazer companhia quando você estiver sem a mega proteção de ninguém pela primeira vez na vida? Assim como existem adultos perversos, também existem crianças más, e esse pensamento andava rondando minha cabeça.
Até que hoje, a gente estava num churrasco, o filho de uma amiga minha (do seu tamanho) te bateu e você imediatamente revidou. Ah, filha, claro que eu não pude comemorar com ninguém na hora. Talvez a mãe da outra criança tenha até ficado meio chateada por eu não ter te repreendido. Mas olha, filha, internamente, eu comemorei milhões. Porque foi só ali, naquele momento, que eu passei a encarar com tranquilidade a sua entrada na escolinha. Claro que não quero que você seja uma criança violenta que tome a iniciativa de bater nos outros, mas legítima defesa é aceita até pelos supremos tribunais. Te amo, filha, um montão.
posted by MÁRCIA DO VALLE
24.1.10
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Carta para a irmã que lê (ou lia) o blog
Hoje eu acordei assim, meio desanimada, e passei a manhã inteira tentando descobrir o motivo. E nem era o caso de achar que o céu cinzento e chuvoso tinha me contagiado, porque amanheceu o maior sol. Procurei algo relacionado ao meu ciclo menstrual, ou ao meu mapa astral, mas nada disso me apresentava nenhum motivo suficiente para eu ter vindo trabalhar de carro, já que aguentar o aperto do metrô só se torna suportável quando o mundo não me parece tão inóspito. Lembrei do "terrible two" da minha filha, mas o nosso fim de semana foi infinitamente mais tranquilo do que o passado, e na segunda passada acho que eu estava até um pouco mais animada do que hoje. Pensei em carência e desencontros, mas também não encontrei nenhum ponto tão fora da curva que justificasse a minha infinita preguiça de fazer as coisas que faço sempre com naturalidade. Sabendo ou não a causa, hoje vai ser dia de almoçar na Livraria da Travessa e ouvir alguns CDs para ver se eu volto ao normal. E foi só quando peguei o celular para trocar uma idéia sobre essa minha vontade de fazer nada, foi só aí que entendi tudo. É que você já tinha ido embora e eu não tinha mais como te ligar. Tá explicado.
posted by MÁRCIA DO VALLE
18.1.10
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Mais uma carta para a filha
Desde que comprei a primeira temporada de "Desperate Housewives", essa virou minha nova mania. Todos os dias, depois que você dorme, assisto pelo menos um episódio. Mas o que eu gosto mais nesse seriado, é da personagem que mora sozinha com a filha adolescente. E apesar de todas as previsões apocalípticas que o seu tio faz para quando você for adolescente, fico vendo no seriado a amizade nada tradicional entre essa mãe e filha, e confesso que nos imagino assim. Sei lá, quase um sonho mesmo. Te amo, filha, até na ficção!
posted by MÁRCIA DO VALLE
15.1.10
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Mais uma carta para a filha
Você não tem irmãos, filha, mas já criou vínculos tão fortes com os primos, que acho que eles se aproximam muito da figura que um irmão (ou irmãs) mais velho teria para você. Já é algo tão consolidado, que cada vez que eu falo em primos, você começa a falar o nome de todos eles, sem esquecer nenhum dos seis.
Daí outro dia, a gente estava numa festa onde, além de você e dos seis queridíssimos primos eleitos, também tinham outros primos seus um pouco mais distantes. E teve um momento em que você queria ir no escorrega na mesma hora que um desses primos mais distantes e eu falei "espera o primo, filha". Na mesma hora você olhou para a outra criança e me respondeu "que primo?". Tem razão, filha, primos são aqueles que já conquistaram esse título, os seis que você adora enumerar tomando cuidado para não esquecer nenhum. Que idéia a minha de achar que qualquer criança que você nem conheça pode se encaixar com tanta facilidade nessa mesma classificação... Te amo, filha, e os primos também!
posted by MÁRCIA DO VALLE
11.1.10
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Mais uma carta para a filha
Eu queria te ensinar a só gostar muito muito de quem também gosta muito muito de você. Só que acho que, para conseguir te ensinar, primeiro eu tenho que aprender. Difícil, filha, bem difícil, levando-se em conta que até hoje ainda não consegui incorporar essa prática na minha vida. Vou continuar tentando, filha, mas lá no fundo eu torço para você conseguir aprender isso sozinha, para a sua vida ser bem mais fácil do que a minha. te amo muito muito muito, filha!
posted by MÁRCIA DO VALLE
11.1.10
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Mais uma carta para a filha
Outro dia, filha, a gente já estava quase sainda de casa, quando notei que a chave do carro não estava em cima da mesa. Nem no bolso da minha calça. Nem na minha bolsa. Nem em cima de nenhum outro móvel da sala. Nem caída no chão. nem entre as almofadas do sofá. E quando eu já estava quase voltando a procurar nos mesmos lugares que eu já tinha procurado, falei "cade a chave do carro?", quase num desabafo comigo mesma, sem esperar nenhuma resposta. Daí você foi direto na área de serviço, abriu a máquina de lavar roupa, pegou a chave e disso "Tá aqui, mamãe!". No mesmo lugar onde você gosta de colocar alguns brinquedos. É filha, comecei a pensar em comprar aqueles ganchinhos para pendurar chaves na parede. Daí você não vai precisar se preocupar em guardá-las. Te amo, filha, very much!
posted by MÁRCIA DO VALLE
10.1.10
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"Temos o mundo inteiro no nosso quintal!"
Backyardigans
Eu não era muito fã de DVDs infantis não, sabe? Achava que ou eram insuportavelmente didáticos (e alguns são mesmo), ou eram puro incentivo ao sedentarismo em frente à TV. Até que um dia comprei um DVD dos Backyardigans, você adorou, e passamos a assistir juntas. E como as estórias não são daquele tipo que fica repetindo incessantemente os números, ou as cores, ou o que quer que esteja sendo ensinado à criança, achei que era só uma bobagenzinha para passar o nosso tempo.
Para minha surpresa, tenho descoberto que é bem mais do que isso. Outro dia, que você andava com medo, quando fomos assistir o DVD, você identificou uma hora que um dos personagens estava com medo e até verbalizou isso em voz alta. Hoje, quando você estava triste, você descobriu pela primeira vez um personagem triste nessa mesma estorinha que já assistimos milhóes de vezes, e também verbalizou isso para mim. É, filha, acho que identificar seus sentimentos naqueles personagens deve te ajudar a entender melhor as coisas que acontecem dentro de você. Sei lá, não tenho nenhum conhecimento técnico ou acadêmico para falar sobre isso, mas já estou olhando Pablo, Uniqua, Tyrone, Tasha e Austin com outros olhos. Te amo, filha, incondicionalmente!
PS: O solo de sapateado do Tyrone no episódio dos fantasminhas é sensacional!
posted by MÁRCIA DO VALLE
10.1.10
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Mais uma carta para a filha
Quando você nasceu, filha, achei que seria impossível dar conta das nossas necessidades primárias se não houvesse alguém nos ajudando. Não poderia nos imaginar morando sozinhas e as duas continuando a tomar banho, comer e dormir como as pessoas normais fazem. Para conseguir te dar comida, comer, te dar banho, tomar banho, te fazer dormir e dormir, eu com certeza precisaria de um par de mãos extra.
Hoje em dia, filha, já consigo fazer isso sozinha sim, até mesmo com alguma tranquilidade. Mas quando pensei que, então as coisas ficariam simples, daí você aprendeu a jogar com os meus medos e inseguranças. Ah, filha, sei que toda criança aprende a usar suas armas e que tenho que ter jogo de cintura, mas por enquanto ainda sou principiante e faço até gols contra. Difícil, filha, muito difícil. Mas quando começo a achar impossível, lembro que antes eu achava que cuidar de você sozinha também era impossível, mas que no fim das contas a gente acaba aprendendo a lidar com essas novas situações, mesmo que seja um aprendizado lento. Te amo, filha, mesmo quando você diz que não me ama.
posted by MÁRCIA DO VALLE
10.1.10
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Mais uma carta para a filha
Eu sempre tive uma tendência incontrolável a ser muito intensa, filha, muito mesmo. Isso vale para as coisas boas e para as ruins também. E tamanha intensidade quando aplicada ao sofrimento já me fez sentir dores tão profundas, que pensava que já tinha ficado imune a esse negócio chato que é sofrer. Porque a não ser que acontecesse alguma catástrofe enorme, nada me fazeria chegar nem perto da amargura que eu já passei (ainda bem), então eu não tinha com o que me preocupar.
Só que hoje experimentei algo totalmente inédito: sofri por te ver sofrendo. E para piorar, não tinha nada que eu pudesse fazer para te ajudar. Ah, filha, foi então que descobri que sinto o seu sofrimento elevado a infinito. Qualquer espinho espetando seu dedo, é como se fosse uma espada decepando minha mão inteira. Talvez o braço. Então me dá vontade de triturar com minhas próprias mão qualquer um que te deixe triste. Mas sei que, obrigatoriamente, aprender a lidar com essas situações vai fazer parte do seu crescimento. Que o máximo que posso fazer é ficar ao teu lado, mesmo que lá no fundo eu torça para um dia você me pedir ajuda para realmente triturar quem te deixou triste. Te amo, filha, mais do que tudo!
posted by MÁRCIA DO VALLE
10.1.10
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